10 outubro 2016

Julho de 69

O pesado casaco marinho em lã parecia exagerado, a gola estilo militar irritava a parte descoberta pelos longos cabelos como eram comuns naqueles dias. Dentro do bolso,  esmagada  e suada,  uma das figurinhas  da Apolo 11 transferia sua imagem para a palma, era das comuns, ninguém quis troca-la,  nem eu, pois além do álbum enchi  de lançamentos meus cadernos.

Nove, oito, sete, seis, cinco...  e a inspetora de disciplina não entendia a súbita energia de quem há pouco havia pedido para sair da aula. "Estou com náuseas professora! Vou vomitar aqui mesmo!". 

A ideia do mal estar veio da comida de astronauta  distribuída às vésperas por uma rede de postos de gasolina, apenas uma bala de café escrito "vitaminada", tão doce e enjoada.

A moça ainda intrigada ouvia meu relato de viagem, a TV de certo esperava ligada.

 Larguei-lhe os braços. Poucas quadras, segue a contagem:  três, dois, um... estarei em casa.

02 janeiro 2013

Deixe-me

Deixe-me ver... tenho a impressão que a casa esta uma bagunça; lembro de alguns amigos circulando por aqui, de ter comido mais do que devia, de que possa ter esquecido um ou outro compromisso,  e que foi feriado bancário pois  perdi um dos cartões e é preciso rever o saldo bancário. Também não tenho certeza de que hoje é dia útil ou se, de qualquer forma, estou servindo para algo.
Já morei sozinho, mas isso foi no século passado. Será que o barulho na sala vem mesmo dos cães que ficaram sem comida? Terei trancado a porta? Não, desde que saí da casa de meus pais vivo na segurança de apartamentos, então pode ser a moça que trabalha aqui. E tem alguém que trabalha aqui? Sim, eu, talvez, meu Deus... deixe-me ver...

24 novembro 2012

Requentando - Travessia

Há um ano eu desistia do Diário da MOrsa, que por sua vez já era filho do blog original do Camafunga, este ativo há quase uma década. Mais do que apagar o personagem fechei o acesso a tudo que fora por anos publicado. A Morsa voltou para o mar e o material está na geladeira dos meus arquivos.  Sexta-feira, enquanto entrevistado pelo Álvaro no programa Olhares da RadioCom, percebi num comentário próprio, que além de não reler o que escrevia, talvez nem lembrasse do que já fora publicado. Não que eu vá mudar um hábito de hiperativo que só vê à frente,  mas, pensei melhor em quem sabe recuperar alguns dos textos. Há uma distância, entre aquele que se chamava por bicho ao que agora assina o nome.  Então,  há um jeito, tentar reinventar o pensamento ou republicar alguma destas histórias mudando um tempero. É neste sentido que crio mais uma possibilidade neste diário: o  Requentando,  e para dar início trago uma crônica de setembro de 2011.

Travessia


Olhar para os lados, ambos os lados!
Pensei que tivesse entendido, mas as experiências  passam e as lições não se completam. 

Minha avó calma, mas ainda titubeante, tentava dar métrica a decisão do melhor momento. Atravessar ou esperar? Complexa é a divisão do tempo. Como compreender entre ficar parado ou correr o risco de cruzar de uma vez e rápido? Carros, seres com vida incorporada, eram mais céleres e traiçoeiros, porque então eu,  pequeno e nada máquina,  teria  que usar os freios?Tempo, outra vez o tempo, até que ritmo, visão e momento se associassem  para poder  deixar de lado as trêmulas mãos de Parkinson. Deste antes, só queríamos chegar ao outro lado. Ela pela cautela, eu pela ansiedade - opostas, mas semelhantes dificuldades.

Um problema, que não tem a ver com a chance de escorregar em pedra lisa ou o de ser atropelado, algo diferente e distante mas que remete a mesma identidade. Travessia.

Tudo parece árduo, obscuro e complicado, mas é simples, e  novamente, só preciso  chegar ao outro lado. Nem tanto, dias se passam e fixado os olhos, permaneço parado.

Há uma questão sem resposta. Crescem as imagens distorcidas de monstros não bem caracterizados. Seriam seres loucos, maus e desatinados?
Tremo porque não respeitam minhas pernas, e suspiro  pela saudade da tal senhora e de  suas mãos - que não existem mais em forma; até reencontrar a lição do tempo:

Calma,  meu filho, calma... é só olhar para ambos os lados.

12 novembro 2012

Tempo

Vinha feliz a menininha carregada de um lado pelo pai e do outro por um cãozinho. Pela conversa o cusco era emprestado por um tio que viajava.

-Pai, quando temos que devolver o Bolinha?

-Em uma semana, filha.

-E quando é isso?

-Sete dias.

-Como se conta?

-Assim: um dia, dois dias , três, quatro, cinco, seis e depois sete. Sete dias!

A menina, atrapalhada entre a coleira e os dedos que sobravam,  tentava imitar o pai, e depois de contar, e recontar baixinho, olha para ele e divide uma solução:

-E se eu parar no seis?

07 novembro 2012

Pé de cataventos...

Ciano, amarelo e magenta
Sol, calor e abrigo
Verde, respiro este momento
Sob um  vento colorido...


05 novembro 2012

Prioridade

Tanto o que fazer!

Tenho que me vestir mas percebo que, em sua maioria, as roupas - que pareciam tantas -  não mais me servem, parecem apertadas, saíram de moda ou com as restantes descombinam-se como trapos.

Hoje é segunda e é novembro,  o novembro de quando exclamamos: "puxa o ano  esta terminado!". Importa-me o tempo, que não seja tarde, pois tenho tanto a ser encaminhado.

A agenda tem múltiplos  formatos: uma é melhor para economia, outra para as atividades prazerosas, mas preciso ser fiel e escravo a do trabalho. É dia de pagar contas. Confiro, o aluguel não pode ser atrasado,  o rancho está  pela metade,  e gastos,  preciso trocar os sapatos.

Duas horas mais duas serão quatro e quando der por mim, como o ano,  será  noite sem que tenha terminado. Na volta quero o conforto de minha cama, prioridade.

Amigos  em quantidade não  me  agradam, parecem também apertar-me. Mudam os interesses, saí de moda, ou, com os restantes, não combinam com meus tratos.

Tenho tanto que fazer: desprezar  roupas, revisar agenda, apagar afetos, pagar as contas,  mas antes de faze-los, para que não perceba tanto o passar do tempo, preciso arrumar o quarto.

Feira do Livro - Dedos e Teatro





31 outubro 2012

Sem Imagem


Desde há alguns dias carrego um corpo que não me pertence. Não sei se é vírus, encosto ou bactéria, alma penada ou idade avançada, mas algo, que não é meu, coordena  passos, atos e pensamento.

Resolvo combater a astenia com forçado movimento, afinal, depois de tantas horas de madorra, cochilos e sonhos desagradáveis, credito à rua o poder de exortar certo  mau humor e, quem sabe, arrumar a cara amassada.

Moro numa cidade de contradições: pobre, e talvez por isso, a exaltar um passado de falsas glórias, reverenciando, entre outras dicotomias: a riqueza sem trabalho, a cultura com arrogância. Aqui vale o  preconceito da ilusórias diferenças nos estratos: culturais, financeiros, sociais e - acreditem-  genealógicos. Nasci neste, como seria em qualquer noutro lugar, só por acaso. Esta terra, como a vida, são-nos emprestados- mas nem todos entendem.  Então, quanto mais envelheço, mais tento reforçar  meus particulares princípios e a forma de conviver sem me incomodar com o que me envolve. Aparentemente alheio ao que determinam como sociedade, consigo refugiar-me em um círculo alternativo, não menor, mas menos perceptível: que me acolhe, enriquece e dá significado para que me encontre feliz, mesmo atolado neste contexto.

Adoro tênis confortáveis, como  também carregar uma bolsa atravessada para, disfarçado,  recorrer quando oportuno à máquina fotográfica. Gosto da camisas por  fora das calças e de calças que sirvam para todos os eventos, como o de hoje - ir a a abertura da  Feira do Livro.

Que bom seria elevar o espírito com as letras, mal julguei, ou poder observar as pessoas em seus diversos estados, modos, etnias e comportamentos. Quem sabe, meio invisível, sacar da máquina e registrar as idiossincrasias desta gente.  Procuro o colorido e a riqueza que estes encontros permitem, e eu, assim, divirto-me. Fiz isso variadas vezes, e por isso optei fugir novamente de casa. Seria bom, mas, não hoje! Não sei, há dias carrego um corpo e um pensamento que não me orientam,  e seja por micro-organismo ou rabugice, detive-me  mais nos termos e nos ternos, mais nas "aristocracias" e hipocrisias, nos grupos de falsos intelectuais e baixas autoridades a discutir uma cultura que, embora acreditem, nem de longe lhe pertencem, pior: posando cínicos para uma população sem graça. Não consegui deixar de me envolver, e como nos pesadelos que até a pouco evitava, absorvi a melancólica realidade desta comunidade. Volto pela distancia entre meus tênis e os seus sapatos apertados, volto, pelo desejo de ser invisível ao palco que alimenta estes personagens, suas mentiras e bobagens, volto.. quem sabe em outro dia, aí talvez,  com boas imagens.