Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens

12 setembro 2012

Bom Dia



Acordar não é bem a verdade, porque nem dormi. Duas noites de plantão mexem consideravelmente com meu humor, que já anda degradado.

Mal chego em casa e recebo o primeiro telefonema de alguém com uma lista de favores, todos envolvendo outras pessoas, ou seja, fazendo-me de intermediário de chato. Antes conto até dez pensando se acolho o chamado, mas, como era o quarto a ser desprezado, não há como dizer que não se veja, atendi irritado.


Resolvo, é melhor tomar um café fora de casa e ter o desprendimento em deixar o celular desligado.  
Tenho um bom livro para isso, leio "Memórias de uma Guerra Suja", pesado mas bom para exorcizar meu desagrado.

Moro no sexto andar de antigo prédio ultrapassado, geralmente desço rápido, se tenho presso uso as escadas, mas desta o elevador ficou no décimo quinto andar  parado. Foi tempo suficiente para a faxineira  pedir receitas controladas, contar o porquê disto em  mazelas: do abandono do terceiro namorado, das filhas adultas desempregadas, dos netos a serem sustentados, do corte de luz e do pouco salário, e até resolver mostrar-me a língua, cheia de aftas espalhadas. A senhora do apartamento ao lado, que do corredor tudo espia e comenta,  por certo pensou ter flagrado um beijo - entre o médico vizinho solidário e a assanhada empregada-  o suficiente para roteirizar mais uma fofoca elaborada.

A porta do elevador, enfim, se abre: dentro já estava uma moça, até então, e pela paciência -portadora de especiais necessidades. No baixo de seus trinta anos que grita aloprada- "entra tio, entra tio, entra tio que a gente por aqui se esmaga...". Eramos apenas três, mas só por mais dois andares, então a porta reabre: olho uma mãe despreparada (filhinho no colo caindo em meio a panos mijados, bolsas de tudo que é tipo e uma caixa cheia de  babados). Introduz sem pensar -aberto- mesmo percebendo que não cabe, um destes carrinhos  modernos que imitam, mas não são, uma Ferrari. Agora estou bem ferrado. Grita feliz a, agora, retardada- "entra tia, entra tia, entra tia que a gente se espalha".



Na curta viagem fantástica: berra a criança esfomeada; a "tampa" (desculpem os politicamente corretos) fica agita; a mãe se desculpa - esfarrapada; e eu quase choro de dor, esmagado, onde não devia, pelas hastes do pequeno carro.

Fujo ao café para repouso e  leitura breves programados, mas me faltam o livro e a carteira com dinheiro, deixei-os perdidos em casa, volto abatido e vencido, desisto... menos uma chance para a liberdade.


27 agosto 2012

Discordâncias dos tempos

A primeira pessoa, sou eu: -seja no pretérito imperfeito ou no presente futuro, mesmo trocando concordâncias ou  perdido nos advérbios e adjetivos - a primeira pessoa sou eu!
Eu.
Custo a encadear a narrativa -começo com a proximidade da velhice ou com a marca infantil de decisivos passos?

Verbo ser, ou outro verbo? ("To be" em outra língua é um mistério literário, porém, com regras simples liberta o imaginário). Vou:
Hoje fui, amanhã não sei. Sou!
Camões nunca seria Quixote, nem Cervantes aproveitaria a malícia de um personagem Rodrigueano, portanto: ler é importante, escrever é desabafo,  mas vivência é o que  pode ser levado.
Eu- primeira pessoa no singular- nasci no momento em que gerei a primeira memória: isso foi ontem, ou, por conta do esquecido, há uma vida.
 Renovo-me na dúvida de por quando iniciar o texto.
Há 5 minutos tento:  hoje fui, amanhã deixei na segunda pessoa o tempo passado... agora, bem agora - desisto!

30 julho 2012

Crônica de Segunda - Na minha...

Foto Fábio Caetano
O segredo de meu relativo sossego é o não levar-me tão a sério.

Recebi agradecido - recusando com educação a oportunidade - convite para mostra de algumas fotos. Não que não tenha vontade de exibir-me, do contrário não me exporia por aqui em texto ou imagens, mas, embora isso, tenho nestas atividades um prazer prioritário e particular de ocupar o tempo e o pensamento, e dividir, com quem se identifique, a essência destas experiências - e  ponto.

Outro dia quase perdi mais um amigo por negar-me a unanimidade. Minha linha do Facebook fazia tanta referência a um determinado ícone desta cidade, que só por comentar acha-lo pessoal e artisticamente arrogante e chato fui criticado como inculto, exótico e retardado. Conheci muita  gente bacana que não precisou ser idolatrada para me fazer viajar, sonhar, pensar, rir, menos enfadar.

Um dia, em semelhante companhia, aceitarei apresentar-me formalmente, quem sabe...

Minha profissão ensina: quem acredita só no que ouve pode sofrer pelo omitido, e  a mesma voz que muito elogia, também sucumbe em espalhar  crítica e  desprezo, ou pode apenas mudar de ideia, por isso, filtro  meus interlocutores a cada momento àqueles que, assim como eu, gostem de mim, mas  sem levar-me  tão a sério.



23 julho 2012

Crônica de Segunda - Frios pensamentos

Praça da Matriz em Porto Alegre

Vá que eu me esqueça de aquecer o banheiro, de separar a roupa antes de deixar da água, e apague com o frio a percepção de renovar o dia.

Tomo chocolate jurando fugir de outras calorias, escolho um chapéu com feltro concluindo um estilo sem nome, mas não deixarei de sair às ruas.

Ideias são como ervas, crescem em qualquer brecha de preocupação ou compromisso, não dão trégua, não me sustentam, mas vivo por elas.
Quem sabe novo emprego, mais ganho em menos tempo; quem sabe mais tempo, menos empenho e mais aproveitamento; quem sabe mais aproveitamento e menos obrigações sem intento?
Todos anos alardeiam: nunca houve uma estação tão rigorosa - mas estão ali os mesmos casacos, mofos e mantas aguardando seus momentos. Procuro algo que me descomponha -azul com bege-  mas as cores são todas sóbrias, óbvias e sobrepostas.

Um caminho diferente, uma área que não reconheça e onde não me identifiquem, que não precise cumprimentar a ninguém e que também não atentem, a cor, ou se uso tênis.

Tudo volta e se renova, só não posso esquecer de aquecer o banheiro para apagar a intenção do frio que me preserva.





20 julho 2012

Bom Dia

Querido diário.
Despertei sem ter dormido confundindo imagens de ontem com maus sonhos, talvez, alimentado pelas letras das músicas que deixei a tocar durante a noite.
"Acordei de um sonho estranho / um gosto de vidro e corte / um sabor de chocolate...".  Cabeças rolando, "vudu, calamidade", reparação, dívidas e mortes.
Mesmo cansado, sou mais criativo nos primeiros momentos do que ao final-do-dia, por isso - Querido diário -, antes que fale na terceira pessoa, preciso de um café para orientar as enzimas e o jornal do dia para me por à  realidade.
Bom dia!



04 julho 2012

Madorra

Embora ande à frente, devo estar atrasado.

Atrasado para o quê? Tem leite na geladeira, algum resto de ontem  para o almoço e a luz do dia que permite que eu leia. Tantos capítulos não vencidos de histórias incompatíveis que embaralho herói e bandido, política e relacionamento num misto de sonho mal acabado e vício.

Tento lembrar o que ontem  me incomodava, mas, antes que tenha que formar lista, volto a conjecturar o básico -que horas serão estas do dia?

Passa da hora de fazer a cama. Quadriculados nas fronhas não combinam com as flores do desconjunto; nunca separo os pares, os impares,  sequer os  parecidos; acordo num circo caído. Fiz uso de algum barbitúrico? Corrijo: um sedativo, apenas para embalar o primeiro sonho. Não lembro se voei na madrugada, se comi a comida errada, mas meu corpo pena por um desconforto. Terá sol a frente destas paredes, ou terei que me contentar com o dos livros?

Perdi as  horas e o tempo - eu, no enrosco desta madorra, dispenso qualquer compromisso. A dor impede que eu corra, devo estar atrasado, mas, pelo menos, ninguém tem nada com isso.

02 julho 2012

Fotografias

Vivo no casulo de minhas limitações, mas nem por isso deixo de espiar o que me é possível.

 Em algum canto desta casa existem  caixas de antigas fotografias. Foram as sobras de meus antepassados, do formato de seus corpos, hábitos e vestimentas, algo da arquitetura em que viviam - que mesmo de pedra, também perecem-  mas nada do sangue que em mim se perpetua.

Desde que comecei a interessar-me por fotografia não desejei mais do que  juntar lembranças, depois, e só depois, descobri que além da imagem era possível colecionar sentimentos - meus sentimentos. Das ruas, dos momentos, dos olhares, das vestes e dos costumes, dos seres que descubro e reconheço, que também passarão, como tudo aquilo que retenho em meus pertences.

Vivo no casulo da limitação e do finito, espio imagens que quero deixar para meus filhos, não apenas em caixas, nem em memórias flash, mas no legado do olhar,  que é  meu sentido.

19 junho 2012

Entardecer

Final de tarde, e as noites ainda ficarão mais longas?

Perdi-me destes equinócios e não percebo se ainda estamos no outono ou o inverno começou quando baixei os casacos do armário.

Gosto de sair as ruas para ver as pessoas "entrouchadas" com os pescoços enfiados dentro das mantas, festejando, as vezes exageradamente, o frio que por aqui não dura tanto.

Tenho poucas horas para fotografia e uma contraditória disposição para não ficar em casa.

Café quente, uma conversa amiga, muita observação, e luz de estação nenhuma - pelo menos enquanto dure o dia.

11 junho 2012

Bom dia

Inicio o dia com uma lista de obrigações.
Tenho contas a acertar, horários incompatíveis, datas que não podem passar em branco.
Inicio o dia sem saber se não serei vencido. Sei da temperatura externa pela imagem da TV - o aquecedor largou minhas cobertas longe e com elas as meias mais grossas que devem estar também jogadas.

Primeiro Maria depois Cecília - um pedaço de papel no bolso é mais efêmero do que agendas eletrônicas; a luz está paga, o aluguel, a TV a cabo, portanto, até que me achem, poderia ficar quieto em casa.
Tenho uma lista de obrigações mas continuo sem saber o que vou enfrentar lá fora: Pelo menos se encontrasse minhas meias!

22 maio 2012

Crônica

Tem alguém tossindo aqui ao lado.

Moro em um prédio de velhos, o que referencia meu tempo como lento, miro-me conservado pelo espelho do elevador enquanto desço, e  sei que ninguém irá chamar-me de senhor até que ponha os pés na calçada.

Então, ando como estrangeiro a procura de novidades entre as histórias de minha cidade, das ruas bem ou mal conservadas, suas sinalizações de esquecimento e pouca prosperidade, das expressões dos que se permitem dividir comigo, do charme do que é mais simples e do eventual e raro susto de algo inesperado.

Moro em um prédio de velhos e caminho como um arqueólogo - sina e prazer de quem consegue apreender o que se apresenta.

Quem sabe um dia escreva sobre isso? Mas não agora... pelo menos até que parem de tossir aqui ao lado.


02 maio 2012

Bom dia, fotografia!

Não pensei duas vezes em sair da cama. Nem precisava, pois trabalho mesmo, só a tardinha e a noite; eu que ando assim meio guarda-noturno, adapto-me aos fusos como se não houvesse diferença entre a noite e o dia a não ser pelo tempo de exposição e abertura do diafragma.

Fui ver àqueles que chamo afetivamente de "meus velhos". Hoje por três motivos: é raro uma manhã de folga, acordei angustiado em ficar em casa e  é o dia de receber meus proventos.

De início custei um pouco a acostumar-me com estas casas - tanto quanto á luz da rua, pois é outono e o sol brilha muito forte - mas não machucam. Com o passar, aprendi a entender tais instituições, a doar-me com prazer e regozijo e aproveitar efetivamente as trocas. Com isso,  em cada contato me sinto mais jovem, do mesmo modo, aliviado por perceber tudo o  que foi vivido, e, quem sabe, ir me preparando para em breve estar do mesmo lado.

Quando acordei lembrei das contas vencidas, da falta de horários, das ameaças do dia, do fim do feriado, do acidente de barco, do jovem atropelado, do improvável risco de cólera e da fome não ser saciada.
Mania de valorizar o medo, inverso ao ímpeto que me faz sair do leito.

Fui ver meus velhos e tomar mais uma lição de vida e sobrevivência, voltei  esperançoso de que sempre há mais o que ser feito, fiz esta fotografia, e ainda recebi meu numerário. Não há do que se queixar!

29 abril 2012

Sobre voltar a leitura

Nada me dá mais prazer do que perceber que  existe um outro, mais rico e sapiente do que o "eu" do dia-a-dia  e que, por vezes, como um espírito, manifesta-se em pensamento, texto ou fotografia.

Alguém me perguntou por que eu não estava escrevendo, respondo: porque ando lendo.
Houve um tempo, dentro da minha rígida concepção de finitude, que releguei o hábito dos livros. Os traços de compulsão e obsessividade confundiam meu desejo dizendo: "se um dia tudo se apaga, vale a pena gastar exíguo espaço em tema único ?"... seja pela morte, pela senilidade ou por Alzheimer,  certamente um dia serei zerado. Não sei se acredito em vida após a vida, mas vi tanta mente brilhante diminuir a  chama a ponto de não mais reconhecer os filhos, não entender em que mundo vive ou até qual  o caminho do banheiro, que desconfio,  e sei que mesmo pulsando um coração pode dissociar-se da mente.

Escrever é diferente, mesmo dizendo bobagens,  deixa marcas e imortaliza -atualmente até que o servidor da web  seja desligado- mas são os textos milenares, embora as vezes mentirosos e falsos, que orientam muitos dos costumes, hábitos, nossas escolhas, amores e crenças. Escrever pode nos manter além da memória e da carne, mesmo que não mais nos olhem.

Então por que voltei a ler?

Talvez pela nova  dosagem da paroxetina; por conseguir enfrentar os medos; por perceber que embora curto ainda há tempo, ou, e é mais provável, por poder associar o prazer da vivência alheia e do imaginário e, sem perceber,  poder roubar elementos para o que ainda resta.

Nada me dá mais prazer do que perceber que existem outros, mais ricos e sapientes dentro do o "eu" do dia-a-dia... 

15 abril 2012

Dieta

Imagem do Velhote Sacudido
Nem bem dei cabo a primeira leva de chocolates da semana passada, precisei organizar espaço digestivo para as comilanças do fim-de-semana.

Churrasco de fogo-de-chão, dependendo do ângulo, é até bonito, embora, na minha urbanidade preferiria não ter visto aqueles bichos quase inteiros pingando gordura, espetados.  Me fiz de gaúcho e saudável e ingeri o que foi servido, mesmo sabendo que depois seria preciso um litro de detergente para limpar o trato gástrico.

Matheus ganhou entre 400 possibilidades - estando em difícil, necessária e rígida dieta, e por apenas um número comprado -  uma cesta de Páscoa gigante. Preocupado, tratei de ajuda-lo na perigosa tarefa de pulverizar as calorias entre os demais  membros da casa e, se possível, os vizinhos; mas eramos poucos, e nesta conta energética negativa coube-me bem mais do que o razoável.

A mãe liga cedo com um convite para uma macarronada de domingo, isso não é comum, e fico constrangido em nega-lo. Não sei se estou preparado, até porque em nossa receita familiar italiana acompanham "brajolas" - carne enrolada com toucinho e tempero verde cozida por horas em um molho de tomate bem temperado...

A tarde por falta de opção deve rolar algum piquenique, o último foi com duzias de pão de queijo e coca-cola, ai só no chimarrão não basta e mais tarde um chá -com bolo- para desmanchar a graxa saturada. Saturado? Nem tanto, porque é comum acabar a semana com um lanche na rua, afinal, o tempo esta propício, ou qualquer outra desculpa que possa ser dada.

09 fevereiro 2012

Ao pé da cama

Caí da cama... não apenas por acordar cedo, mas por despencar dela.

Ontem a chuva era tanta que a pequena distância daqui até a lancheria significava  algo como atravessar o Canal da Mancha. Alguém sob a mesma marquise sugeriu que tirasse os calçados, ou então que fosse a nado. Resignado aceitei que os dez minutos que faltavam para o fechamento do estabelecimento estariam vencidos pelas intensidade das águas.

Fome, muita fome, e a tristeza de perceber que logo ali encontraria o que quisesse entre pães, queijos, doces e salgados. Desconsolado voltei para o quarto e tentei enganar o estômago com que havia: coca-cola choca e duas fatias de pão torrado. As horas foram passando,  e na medida contrária ao roncar das vísceras, diminuíram as trovoadas. A tormenta, enfim, estava acalmada, e volta a possibilidade da fazer tele-chamada.

Tarde, seria muito tarde para pedir alguma comida, o dia já virava, e a com as horas, a  certeza de uma indigestão programada. Meu médico de infância dizia: no estômago é sempre escura madrugada - mentira! -  mas não resisti: "Um bauru especial sem alface!" e...quanto tempo para a chegada? - "Cerca de duas horas, senhor...  aguarda?".  Que venha a merenda, a esta altura, mesmo que fria ou até molhada!
O sono empurrado pela bebida e por um vídeo  todo picotado pelas chamadas do trabalho, para até que  - pontualmente e  como anunciado-  chegar-me  um pão recheado de molhos, gorduras, ervilha, milho e um pouquinho de estranha carne. Duas e meia da manhã, sem tempo, engulo rápido. E olha - nem custou barato!

O resto foi de sonhos coloridos e gazes; em alguns momentos vivi o apocalipse ou quase. Não  sou de guardar detalhes, mas divido aqui algumas imagens:

Tentei atravessar a porta; morava em um sobrado alto e pobre; canos pingavam e barro; correram-me de casa onde esqueci as malas, nelas deviam estar os cobres, meus medos, desejos  e meus sapatos. Odeio sonhar com descalços; então elevo a perna para arrombar o marco  e em posição marcial meio desequilibrado, voo como um ninja desajeitado na ultima lembrança até despencar para o lado.

Caí mesmo despertando tonto sem entender o fato: aquilo era sonho ou ja estava acordado?

Adeus lanches noturnos e refrigerantes cafeinados ou manterei pernas inquietas, azia, pesadelo e quedas.

26 janeiro 2007

Clima



Copo de Amaretto, um som de fundo, Harry Conick Jr.
A janela, um pouco menor do que devia, não expõe Manhattan em descortino, mas apenas uma parede suja, muito próxima e contínua. Meu loft esta mais para "basement", e não importa se com isso me afundo, este espaço é pequeno, mas sou o dono deste mundo. Afasto o puff de jeito, um chute, voam cartas, dois passos, os primeiros para a esquerda, para direita, sem compasso. Olho meio para o lado, esqueço dos olhos fechados, quebrada de quadril indiscreta, vertígem confunde meus astros. A parede escura intimida, mas mantenho elevadas ao vento, as mãos que afastam tristezas, também perdem-se em movimentos. Tanto som embaralha propósitos, "Kissing a Fool", essa é bem animada. Meu gosto mistura estílos, espalho mais uma almofada, néscio reviro Gershwin no túmulo, antes que outra vida o faça, esqueço qualquer contratempo, agito alegria escassa. Pijama surrado, sem robe, nem smoking, nem fumo ou cigarro, até a fumaça que cerra, é arrogante, é leve mas falsa. Mais uma embalada e já durmo! "When a fall in love", já é tarde, vizinhos chegarão em grupos, para saber do que se trata. Celine é pop e brega, olha o nível da bebida! As calças alargadas expoem nalgas, de fino, só sorver delicado. Blue Note, é uma bruma cerrada, mas meu gueto não passa da sala. Sax, tenor, que saco! Cade o cd emprestado? É Getz, Dexter e Gordon, me sinto obeso e nauseado, Coltrane, não me vejo mais jovem, opa, o puff, tropeço. Desajeito no estofado, cheiro velho a preconceito, vem do prédio, aqui na frente, ou será que é do lado? Bille, Ella me abandona, licor doce derramado, tonto de amor não me encontro, tonto de dor revirado. Vaughan, "vaudeville", sou um astro, isto é um teatro de espetáculos. Broadway, minha relação não esta em voga, Sara, ameniza sem cura. Aretta, acabou meu amaretto, perdi as calças, estou exausto. Me jogo em qualquer copo sujo, e é por aqui que me apago...

12 janeiro 2007

Vida Mansa

Vinha eu caminhando sob um calor terrível, suado com pasta pesada pendurada, atrasado para o trabalho, quando, passando por praça central desta rica cidade, deparo com a seguinte cena. Peço desculpas pela qualidade da imagem tirada com o celular, mas não pude me furtar de faze-la, porque além do caráter jornalístico marca a indignação e o inusitado. Protegido por uma generosa e agradável sombra está este indivíduo a sono solto, como em casa... até aí nada que qualquer cidadão não mereça, seria o desfrutar de em um espaço público, até porque muitos cidadãos desta urbe assim o fazem, muitos, mesmo sendo 16 horas de um dia que deveria ser útil, e, os que fazem, a maioria em idade fértil, digo produtiva, é nestas hora, também porque por aqui prevalece o desemprego e a preguiça, mas isso é outra história, afinal o rapaz ao lado já é morador contumaz deste terreiro, quiça, a esta altura não seja até dono da sombra. Passo por ali seguidamente e, a menos que a invisibilidade da miséria me engane, não o reconhecia.


Mas, como dizia, vinha eu suado e atrasado, correndo, passando por uma praça central desta pobre cidade quando me deparo com esta cena: uma pilha de entulhos e lixo, onde, como diria um amigo, havia "de um tudo", desde placas de sinalização a restos de comida, embalagens vazias, monitores de computador, caixas e mais caixas de mudança como se a espera para serem arrumadas, sem pressa é claro, porque nem tudo ali era recente pelo que se notara, inclusive a delicadeza de alguns vasos de plantas que, por mais algum tempo, estariam de vez enraizadas. Não sei, não tenho bem certeza, mas acho que já havia visto esta cena, confundo, pois passo ali freqüentemente, mas, novamente, a invisibilidade da miséria e da falta de perspectiva de ação dos serviços públicos ajudaram a enganar o ritmo desta instalação, antes fosse uma instalação e não uma mudança, pelo menos teria aplauso pela mensagem e significado... profundos.


Agora a imagem se completa, e pena que era apenas um celular e não uma máquina, pois no momento não pude fazer nada a não ser ficar contemplando a cena completa. Ali já corri com meu filho um dia, tenho fotos antigas de minha infância com a família, mas isso faz tempo, muito tempo. O que importa, hoje, é que o contingente cria uma obra-conceito e une a miséria e o descaso em uma manifestação espontânea de arte, e sem saber, o homem que dormia sob a sombra junto a seus restos e pertences finalmente consegue ser visto, pelo menos por alguns como eu que não pude desta ignora-lo.

05 janeiro 2007

Acordar

É preciso saber a medida entre enfrentamento e comodismo. Há dias que, meio Quixote, acordo com disposição e determinação de desafiar fantasmas e fantasias, resquícios da noite e da a confusão entre o que é ou não da vida, e mesmo que se acompanhe de uma ressaca antecipada de sono e dúvida, restabelece em possibilidade de desafio e de conquista. Imaginário? Indícios para avaliar, pistas que fogem ao domínio do inconsciente, trilhas e atalhos para serem experimentados. Não acalmam nem esclarecem o que as horas e os compromissos absorvem e exigem. Bom pudesse levar estas imagens da suposição à energia pelo menos por mais algum tempo e transformá-las em prática e realidade, exceto, é claro, quando a afronta se transfigura em demasia e é sufocada por melancolia ou pelo medo. São maioria, outros não.
Hoje acordei cansado e o que carrego é sentimento físico. Persigo a necessária acolhida, mesmo que solitária, mas prefiro o aparentemente simples poder de desprezar, sem culpa, os entendimentos, as justificativas e as razões. Danem-se porquês e que venham horas de paz sem determinar motivos. O mesmo marasmo torporoso de antes, mas não há o que buscar do que vem ou não da noite, só aceitar e esquecer dos mapas e roteiros. As idéias são como quebra-cabeças incompletos e se não se ajustam podem deixar a vida em pausa. Pausa, é o que quero hoje para que o dia venha como raparo, como mais um dia, como uma passagem... apenas, apenas e apenas. Não acalmam nem esquecem o que as horas e os compromissos absorvem e exigem. Enfim amanhã, já no primeiro momento, serei novamente cobrado pelo espírito da luta, e não saberei desmembrar o que pode ser onírico, real ou necessário, só mesmo o cansaço é palpável como hoje e físico, o resto, vem da alma, é instável, como o despertar que não consegue ser medido, nem no enfrentamento nem no comodismo. E segue o dia...